Graças
a tudo o que é sagrado, a idéia de que mulheres não jogam videogame é
uma concepção tão sem sentido quanto esse nosso hobby ser atividade
exclusiva de crianças.
Infelizmente, o conceito das senhoritas serem
adeptas apenas da jogatina casual e de jogos nada complexos ainda é uma
bobagem muito difundida, como numa infeliz propaganda recente do PSP.
Para aqueles que ainda acreditam nisso apresentamos Juliana Medina
Tagliatti. Fã de jogos desde pequena, ela trabalhou tanto na Hot Line
da Tec Toy quanto na Ação Games, e definitivamente não foi por conta de
seus belos olhos como vocês irão perceber pela entrevista que ela
gentilmente concedeu ao Sega-Brasil.
Juliana nos revelou alguns detalhes
interessantes sobre a representante brasileira da Sega nos bons tempos,
além de um par de histórias curiosas. Não se deixem enganar pela
simpatia e bom humor da moça, ela provavelmente pode chutar o seu
traseiro em um monte de jogos que você se acha bom.
Em primeiríssimo lugar, como e quando começou a sua história com os videogames?
Eu sempre fui meio anti-social e não gostava muito de sair... Desde pequena! (risos)
Eis que meu pai me deu meu primeiro videogame aos sete anos... Um
Atari. Nossa, aquilo me viciou na época. Era 1983/1984 e, pra piorar,
do lado da minha casa tinha uma locadora de fitas de Atari e Odyssey.
Era uma festa.... Meu pai tinha que me levar umas três por semana pra
trocar de fita. Depois disso veio o primeiro Nintendinho 8 bits e em
seguida o primeiro Master System. Já em meados dos anos 90 comprei meu
primeiro Mega Drive. O (modelo)1
mesmo, e nesta época consegui um emprego maneiro em uma loja chamada
Famicon Plaza, onde eles alugavam consoles por minutos - o pessoal
jogava lá mesmo, tinha uns 30 aparelhos entre SNES, Pc Engine, Mega
Drive... Nossa, foi o segundo melhor emprego que já tive. Foi nesta
época que comecei a ir a feiras de videogames, participar de
campeonatos - inclusive ganhei meu Super NES num deles, em uma feira de
videogames na Avenida Paulista. E por aí vai....
Juliana no centro, clique para ver maior
Como surgiu a oportunidade de trabalhar para a Tec Toy, leia-se o emprego dos sonhos de qualquer fã de jogos na época?
Depois
que eu trabalhei na Famicon Plaza, que acabou fechando, continuei
maníaca por games, colecionando, jogando, lendo muitas revistas e tive
que procurar outro emprego. A Tec Toy foi definitivamente uma
coincidência maravilhosa na minha vida. Eu mandei meu currículo em
resposta a um anúncio de empregos no jornal. Não dizia o nome da
empresa nem nada, apenas que estavam selecionando operadores de
telemarketing. Fui chamada para uma dinâmica de grupo. Durante a
dinâmica, acabei falando sobre meus conhecimentos de videogames,
campeonatos que ganhei, etc... Fiz as dinâmicas, fiz entrevista e no
final de tudo, a Supervisora da área (Ana Selma) me chamou em uma sala
e falou que para a vaga de telemarketing eu não havia sido selecionada,
mas que ela tinha uma vaga que era a minha cara. Para a HOT LINE!
Nossa, quase pulei de alegria. Primeiro só soube que a empresa era a
Tec Toy quando cheguei lá no dia da entrevista, segundo porque nem
imaginava que eu teria alguma chance de entrar em hot line. Estava lá
para a central de vendas deles e para mim já estava ótimo, pois eu era
fã, viciada e amava tudo o que se referia à videogames e principalmente
pela Sega.
A minha idéia (e
provavelmente a de muita gente da nossa geração) de como funcionava uma
linha direta é retirada diretamente do clássico filme O Gênio do Videogame, daquela cena em que a Jenny Lewis ficava ligando pedindo dicas de Legend of Zelda
e outros. Como era a rotina de trabalho? A Tec Toy disponibiliza
materiais de referência para consulta ou este era feito por vocês?
Acontecia de ser preciso checar no próprio console a dúvida da pessoa,
na hora? Descreva como geralmente funcionava esse processo.
Nós
trabalhávamos em turnos, eu e mais quatro meninos. Nossos postos de
atendimento tinham todos os consoles da Tec Toy, tanto para praticarmos
como para detonar os games antes de sair no mercado e também para tirar
dúvidas na hora (quando possível), além de um computador para os jogos
de PC da Tec Toy (lançamos alguns também!). Dentro do possível, na
maioria das vezes, recebíamos o jogo antes do lançamento, sem dica
alguma. Tínhamos que terminá-lo o mais rápido possível, fazer o passo a
passo de cabo a rabo e digitar todas as dicas possíveis no sistema,
para que quando atendêssemos uma ligação de um game que foi terminado
por um outro atendente da Hot Line pudéssemos ajudar. Mas a regra era
que todos jogassem todos os games sempre. Em algumas vezes recebíamos
as dicas secretas antes, mas não podíamos divulgar até q a matriz
autorizasse.
Como eram em geral
as ligações para a Hotline, geralmente ligavam pessoas com dificuldade em algum
ponto específico do jogo ou pediam mais dicas/truques gerais? Ou mesmo
queriam saber sobre lançamentos e coisas do tipo?
Meu....
Tinha ligações que irritavam... Às vezes a gente rachava o bico, outras
a gente tinha vontade de desligar na cara. Tinha um moleque que ligava
quase que todo santo dia, pra zuar a nossa cara perguntando: “COMO EU
FAÇO PARA TRANSFORMAR O SONIC NO MICKEY???” (risos)
Aí quando encheu o saco comecei a falar umas coisas bizarras: “Mano,
faz assim: Primeiro, antes de ligar o mega você deixa todos os botões
do seus 2 controles apertados. Aí você liga.. Mas não pode soltar
nenhum. Depois você solta, e aperta 174 vezes o botão C depois 121
vezes botão A, começa o jogo e aperta reset. Se funcionar você vira o
Mickey. Mas tem que ser muito rápido, senão não da certo”. (risos) Sobre lançamentos, também ligavam, mas eram poucas ligações.
Quantas pessoas trabalhavam na Hotline? Como era o ambiente?
A
Hot Line era uma parte da central de atendimento, tipo uma subdivisão.
Lá tinha a Central de Vendas, a Central de Atendimento e a Hot Line. Na
Hot Line tinham cinco pessoas (eu e mais quatro meninos) e no restante
da central de atendimento tinham mais umas 15 pessoas. O ambiente era o
mais incrível possível, podíamos levar os games pra casa... A central
era toda enfeitada com bonecos do Sonic, Tails e cia ltda, pôsteres,
TVs ligadas e a galera jogando. Nossa... Maravilhoso! Saudade!!!
Aconteceu de alguém estranhar o fato de uma menina atender ao telefone da Hotline? Ou ficaram mais assanhados por conta disso?
Aparecia
de tudo... Assanhados, meninos estranhando... Até uns que tentavam
tirar um barato do tipo pedindo uma dica difícil para ver se eu
sabia... Coisas do jogo The Immortal por exemplo, e se ferravam quando
eu respondia na lata e perguntava: “Era só isso que você queria saber?”
Assanhados também. Uns que ligavam todo dia e até já me chamavam de Ju.
“Oi Ju!!! Eu queria ir aí conhecer a Hot Line.” (risos)
Aliás, depois daquela entrevista na Ação Games (edição 121), da aparição no jornal da TT (número 24) e do comercial de TV (do refrigerante Schin Break),
choveram telefonemas e cartas? Porque essa coisa de “menina que joga
bem e tem meia dúzia de consoles em casa” seduz os marmanjos...
Choveu
sim... Pior de tudo é que choveu. Mas como falei na primeira
pergunta... Sou tão anti-social, já tinha meu namorado... Portanto, era
obrigada a dar uns cortes sutis - as vezes não muito (risos)
Ainda
nesse assunto da “mulher-jogadora”, lembrei de algo que é dito por você
no comercial, sobre você ter vencido um campeonato certa vez e o
anunciante achar que era um erro uma menina em primeiro lugar. Já
passou por mais situações assim?
Sim... logo que entrei
na Hot Line não fui tãããão bem recebida pelos meninos que lá estavam.
Primeiro eles sentiram um pouco de ciúmes, pois a Supervisora acabou
por dar mais atenção a mim no começo (lógico, né? Acabei de entrar...
Era uma menina...), depois porque acho que não botaram muita fé de que
eu sabia de games. Não liguei. Simplesmente comecei a jogar, e no
primeiro dia peguei um game de Saturno que nenhum deles queria fazer o
passo a passo (Bug Too). Levei pra casa as 17h. No dia seguinte, as 9
da manhã o passo a passo estava pronto. E aí começaram a se entrosar um
pouco mais comigo. Depois de um mês tudo mudou e eu já era uma mana dos
games dentro do mundo dos manos dos games!
Você trabalhou somente com a Hotline ou exerceu outras funções na empresa?
Apenas
na Hot Line. Três anos, mas eu também dava treinamento de produtos para
novos funcionários por eu conhecer bem todos os produtos da Tec Toy
Por
estar dentro da TT, você devia ter acesso aos jogos com bastante
antecedência em relação à nós, pobres mortais. Você se lembra de algum
clássico que teve a oportunidade de experimentar com exclusividade?
Nossa... Rivennnnnnnnn!!! Era o mais esperadooooooooooo!!! Putz... Quando chegou na minha mão eu surtei!!!! Eu amava Myst... Esperei tanto pelo Riven, meu Deus!! Quantas noites inteiras jogando!!!
Juliana na Ação Games ed. 122. Clique para ver maior
E
em relação a protótipos de jogos ou títulos que acabaram nem sendo
lançados posteriormente no Brasil, alguns chegaram a passar por suas
mãos para teste? Recentemente, nosso usuário ReBirFh descobriu que a TT
chegou a registrar várias nomes de jogos que nunca deram o ar da graça
por aqui, de obscuridades como 3x3 Eyes do Sega-CD até o cultuado
M.U.S.H.A. de Mega
Então... O departamento de marketing
tentou muita coisa.... A maioria não saiu do papel. Estes citados, não
saíram do papel... Mas foram pouquíssimas coisas. O pior problema é que
eles nunca nos consultavam para saber o que achávamos que deveriam
trazer para o Brasil. A gente sempre se revoltava, ia lá no
departamento de Marketing para dar sugestões... Mas nunca nos ouviam.
Participamos apenas da produção do Street Fighter (trash) para Master System.
Depois da Hotline, você fez outras coisas ligadas ao videogame? Com o que trabalha hoje em dia?
Depois da Hot Line trabalhei na redação da Ação Games
por alguns meses e acabei saindo desta área, pois entrei na faculdade
de finanças... Fui morar em Londres um tempo... Voltei e me
especializei em finanças, que é onde atuo até hoje.
Em
um dos seus primeiros posts no fórum, você comentou a respeito da
concordata da Tec Toy (acontecida em 1997) dizendo que a empresa virou
outra a partir daquele ponto. Já faz tempo que existe um burburinho
entre os fãs da Tec Toy das antigas, feito de pedaços de informação daqui e
dali, que prega que ali foi realmente o fim da empresa que crescemos
idolatrando, com demissões massivas de funcionários, mudança de
políticas em relação a lançamentos, etc. O que efetivamente aconteceu
na época?
Aconteceu que em 1998 a empresa entrou em
concordata porque a Tec Toy não conseguiu suportar a grande
concorrência que começou a entrar no mercado com a Ni***ndo e o
Playstation 1 que estava começando. O Marketing não se preparou, eles
não mudaram... O Dreamcast no Brasil foi um fracasso... As vendas do
Master e Mega já estavam desabando e tudo isso resumiu em um belo
prejuízo, que resultou da demissão em massa do pessoal, saída da matriz
na Lapa, fechar a megafábrica em Manaus e comecar do zero, focando em
novos produtos. Na verdade a Tec Toy começou a “decair” quando um dos
donos - agora não me lembro o nome - faleceu(Juliana se refere a Daniel Dazcal, fundador da empresa, falecido em 1994), ficando apenas o Stefano (Arnold), que também já não é mais o presidente da empresa.
Agora, um pouco sobre a Juliana jogadora. Quais seus estilos de jogos favoritos? Tem algum que você não curte?
Acho que de tudo que já joguei só tem um jogo que odeio: James Pond! Gosto muito de Myst, Riven, Broken Sword, todos os Need for Speed e jogos no estilo adventure.
Qual seu console preferido, e porquê?
Mega
e Master sempre. Hoje em dia os consoles estão muito cheio de gráficos,
músicas, blá blá blá... Mas nada se compara aos jogos dos consoles de 8
e 16 bits. Tanto em sua historia, como em sua jogabilidade e
divertimento.
Seus dez jogos favoritos de todos os tempos, e porquê?
Riven, Myst, Castlevania, Broken Sword, Phantasy Star 1 do Master e o do Mega, Ayrton Senna's Super Monaco GP 2, Sonic 1, Super Mario World, Sim City, Street Fighter e Mr. Bones. Sinceramente porque para mim eles são jogos que revolucionaram época e serviram de base para a maioria dos games de hoje.
Juliana no comercial da Schin
O que tem jogado ultimamente? É mais fã dos consoles clássicos ou está curtindo a geração nova?
Tenho
consoles novos (PS2, Wii e Xbox 360), mas sou fã dos clássicos. Hoje
estou sendo obrigada a curtir com meus sobrinhos o Wii (por causa deles
que eu comprei). Mas nas horas vagas estou ralando lá no Call Of Duty.
No
Sega-Brasil nós temos alguns tópicos dividindo alegrias e frustrações
sobre jogos clássicos. Um deles trata sobre aqueles títulos que nos
deram um trabalho enorme para terminar e que por serem reconhecidamente
difíceis nos encheram de satisfação ao vencê-los. Outro já é uma
espécie de confessionário sobre jogos que ainda não conseguimos
terminar, por mais que tenhamos tentado todos estes anos. E você, qual
jogo te deu mais orgulho como jogadora por conseguir terminar e qual é
a pedra no seu sapato, aquele que você nunca terminou?
Orgulho = The Immortal do Mega, pois ninguém conseguia terminar a tempo de lançar.
Pedra no sapato: JAMES POND! Affe... Acho que é porque odiei tanto este game que não tinha paciência pra jogar.
Juliana,
em nome do Sega-Brasil deixo meus mais sinceros agradecimentos pela
entrevista, sempre é interessante saber mais sobre a empresa original
que nos fez fãs de Master e Mega, bem como das pessoas que trabalhavam
lá. Algum recado para o fórum?
Recado pra galera? Apenas
um que sempre usei pra mim, quando me falavam que games eram perda de
tempo ou coisa de desocupado: Continuem perdendo seus tempos preciosos
com algo que para mim é a mais preciosa invenção de todos os tempos...
Games são magia, diversão , inteligência, ajuda contra stress e no
final das contas, a melhor terapia que existe.
Esta entrevista foi produzida pelo Corredor X exclusivamente para o site SEGA-BRASIL. Agradecimentos à Juliana pela gentileza!
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Mestre Ryu
Posts: 4
Re: Reply #4 on : Sun February 28, 2010, 18:50:58
Nossa! Eu me lembro dessa matéria da Ação Games que falava sobre a Juliana. Tive a honra de falar com ela apenas uma vez na Hot line.
mateus
Posts: 4
Re: Reply #3 on : Fri December 18, 2009, 17:09:14
Good luck, Pond.
Vectorman
Posts: 4
Re: Reply #2 on : Tue December 08, 2009, 18:45:53
Ótima entrevista!!
"Infelizmente, o conceito das senhoritas serem adeptas apenas da jogatina casual e de jogos nada complexos ainda é uma bobagem muito difundida"
Nunca pensei uma bobagem dessas... Até por que minha mãe joga melhor que eu...
Guilherme Cardim
Posts: 4
PArabens Reply #1 on : Tue December 08, 2009, 12:16:52
Isso ae jujuba!!!!! qnd vc comprar meu MW2 em londres a gente se pega on line... uhahuauha!!!
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Posts: 4
Reply #4 on : Sun February 28, 2010, 18:50:58